Contos Inacabados.
Eduardo Ramos
Garoa
(escrito em algum momento, em 1999, em São Paulo).
Figura do cabelo oxigenado comendo sobremesa na bandeja do garçom que.passa se espremendo pela churrascaria surfando no sangue da carne da vaca moída. O cabelo é da avó de um neto com cara de viado, que come um sundae com calda escorrendo e melando tudo, enquanto sua irmã arrasta a saia e pernas no chão de sangue ao lado da mesa. E na mesa ao lado dois senhores de terno de linho gasto e amarrotado exaltam as virtudes de Collor e Maluf, em meio às fatias das suas picanhas carbonizadas. E,alguns momentos depois, passo pela --suprema anti-homenagem- escura, cinza e horrorosa Passagem Subterrânea Tom Jobim e compreendo o que é São Paulo.-
Guernica
Eram nove da manhã, Antônio não sabia. Rajadas de metralhadoras, sangue preto misturado na lama, barulhos ensurdecedores de gritos de seus companheiros, morrendo ao seu lado. Não sabia se estava morto também.
Explosões, chuva amarela, olhos ardendo, sirenes, sirenes. Silene. Na sua lembrança, a imagem da puta se embaralhava com as santas. Ah, as santas putas. Antônio ria, quase babava. Ria, ria. Já não sabia onde estava. Não percebia onde estava. Não sabia que já era meio-dia.
Gershwin
Eu estava de fone nos ouvidos, no trabalho. Ela estava a duas ou três mesas adiante. De repente, a minha visão ficou preto-e-branco, Ana Luiza se movimentava em câmera-lenta e eu era capaz de ver cada detalhe da sua expressão, da sua beleza. Seu sorriso, os olhos, o cabelo curto, os lábios, braços, seu corpo todo, eu via sua imagem em zoom, câmera-lenta, acho que de todos os ângulos. Ela falava comigo, me explicava algo, não me lembro de responder nem do que ela dizia, sua beleza ofuscava e era só o que eu via, ouvia e sentia. Por um momento aTerra parou de rodar, eu flutuava, entendia o que é a vida, o que é importante e o que é Deus.
Já fazem 10 anos que isso aconteceu. Não me lembro se ela era mesmo Ana Luiza, só tenho certeza que ouvia Gershwin.

O carro novo
Carro novo é sinônimo de conquistas. Foi o que pensou Maurício, quando saiu com seu novo Audi. Não tinha como pagar o carro, mas estava adotando um princípio recomendado por seu primo Mario, contumaz leitor de livros de auto-ajuda: "viva como se tivesse um milhão de dólares".
Com o Audi, Mauricio conquistaria não só sua independência financeira,mas também as mulheres mais louras e robustas.
Na praia do Leblon, estacionou o carro e fez com que Lúcia entrasse. Loira, 31 anos, auge da beleza carioca, ela não era corajosa, nem tampouco aventureira. Mas tinha uma queda irresistível por carros. Adorava os importados, sendo que o Audi era seu predileto. Conhecia todos os detalhes, das cilindradas, do câmbio, da suspensão. Estar ali, com Maurício, lhe dava algum prazer.
Mas um engarrafamento na Barra permitiu que Lúcia se desvencilhasse dele e escapasse em meio à fumaça que subia para o morro. Rapidamente, conseguiu chegar a uma guarita da polícia e não foi difícil para o Cabo Jonas prender Maurício.
Indiciado por seqüestro e furto de automóvel, Maurício foi imediatamente preso. Mais tarde se descobriu que, por total coincidência, o Audi roubado era do autor do livro de auto-ajuda lido por Mario. E Maurício processou a ambos.
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