
CHEIO DE PROSA
Nei Leandro de Castro
A gula brilha nos olhos grandes dos glutões, com o fulgor das gemas malpassadas. A gula mergulha e nada no frigir dos ovos, no ouro liqüefeito do azeite de dendê, naufraga em molhos untuosos: bechamel. Na mesa, a gula rende-se à beleza trágica do leitão asfixiado por uma maçã. A gula trespassa com a língua e com os dedos a cobiçada virgindade das empadas. De noite, quando a lua é uma fatia de queijo no infinito, a gula toma a geladeira de assalto, em busca do último pedaço de camembert que se refugiou no frio, protegido por mortais mortadelas. A gula é docemente herética: adora papos-de-anjo, barrigas-de-freira, toucinhos-do-céu e a eternidade tecida em fios de ovos. Com olhar mendigo, a gula lambe os chocolates do hemiplégico. A gula se perde e se encontra em paisagens de sonho: montanhas de claras em ponto de neve, bosques de algodão-doce e alcaçuz, às margens de um lento e silencioso rio de leite condensado. Mel sobre panquecas, morangos soterrados pelo creme, nozes e amêndoas cobertas de calda de morango, o sabor e o perfume da baunilha sob camadas de mousse – eis os jogos de esconder da gula. A gula adora os lábios carnudos e trêmulos das gelatinas. Politicamente incorreta, ela alimenta o seu desejo mais intenso: omeletes de ovos de avestruz com recheio de corações de beija-flor no café da manhã. A gula se banha em cascatas de saliva. Carrega nos bolsos pegajosos de gordura o seu pecado capital. Não teme o inferno e suas amarguras de jiló. Rejeita a cozinha insossa do purgatório. E só admite um céu: o palatino.
Onde se oculta o amor oculto? Nas franjas do mar? Na cortina dos cabelos? Faz bem à alma tocar o seu corpo ou simplesmente vê-lo. O amor oculto tem um sorriso que lembra sons de flauta e de guizos. Seus olhos escuros, dissimulados, são promessas de ternura, carícias e pecados. O amor oculto percorre caminhos, trilhas, ama a natureza e é livre, solto, felino como uma tigresa. Como se veste o amor oculto? Roupas escuras? Calça jeans? Blusa amarela? Se é oculto, como dizer o nome dele ou dela? Como me surge esse amor oculto? De que jeito? Tem uma dália tatuada sobre o peito? Escala falésias? Dança conduzido pelos vinhos? Devora com prazer, muito prazer, a sobremesa? O amor oculto sonha como poeta e quase foi princesa. Quero que o seu sorriso e seu olhar me afaguem com a doçura e a delicadeza dos bombons da Kopenhagen. O amor oculto se esconde em montanhas, se perde na neblina, mas seu sorriso permanece e ilumina. É ninfa de patins dobrando a primeira esquina. O amor oculto surge, sem pedir licença, nas minhas horas matinais. E permanece pela tarde, pela noite, e quer mais, sempre quer mais. O amor oculto é tranqüilo, discreto, não gosta de palavrão, exceto os gritados nas horas desvairadas da paixão. É embriaguez em loja de louças, absinto em xícaras azuis. O amor oculto emerge de crateras, quimeras, vestido de luz. O amor oculto faz questão de não ser, não estar, não vir à tona. De repente, monta e grita e esporeia e cavalga como uma amazona.
Satã é um só e não tem profeta. É um velho fumante, rococó, que gosta de Bush e do Pateta. Ele ouve CD portátil pelas ruas de Nova York e tem um repertório e um suor que não há diabo que suporte. Gosta de “fast food” e de maionese – qualquer desgraça pra ele é pouca. De noite, veste o pijama da arrogância e dorme de touca. Que mais? Às sextas-feiras, tira as barbas de molho, bebe, fuma, joga, dança e não se satisfaz. Dá uma voltinha em Bagdá, manda matar centenas de mulheres e crianças, em nome de sua diabólica paz.
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