
DE LILY MARINHO, DE FERMINO DAZA E DE MUITA GENTE MAIS...
Maria das Graças Targino *
Acaba de chegar às prateleiras das livrarias nacionais, editado pela Record, o livro Roberto & Lily , autobiografia de Lily Marinho, esposa, por 14 anos, de um dos homens mais poderosos do Brasil, nos últimos tempos, Roberto Marinho. Primando por sua origem européia (filha de inglês e francesa), Lily contou, na verdade, com a ajuda de um ghost-writer, Romaric Büel, ex-adido cultural da França no Brasil, para melhor “costurar” a sua convivência junto ao homem que construiu um grande império, as Organizações Globo.
Em jornais de ampla circulação, em colunas de diferente natureza e diferente teor, como também em revistas informativas ou de frivolidades, o assunto é Roberto & Lily . Nesses dias, o mesmo tema, em rodas de amigos, universidades, bares e por aí afora. Mas, ao contrário do que se pode pensar, não são revelações bombásticas acerca dos bastidores do poder. E é isto o surpreendente: o que vem causando frenesi é o tema – AMOR. Amor de um homem que, aparentemente, aguardou 50 anos para concretizar um sonho de juventude. Com a viuvez da amada, de imediato, a separação da mãe dos seus filhos, e a certeza de que valera a pena esperar para viver dia a dia, hora a hora, os sonhos cuidadosamente acalentados. Não sei se Roberto Marinho foi tão preciso na espera do seu amor, como Florentino Ariza o foi, a esperar a sua Fermina Daza, por longos cinqüenta e três anos, sete meses e onze dias, conservando-se virgem e intocado, à espera da mulher, de quem se reaproxima, também, após a viuvez .
Vida e romance. Romance e vida. Roberto & Lily vivem uma história de amor, que nós julgamos possível somente quando os personagens – Florentino e Fermina – estão tão bem traçados num romance denso e terno como A amor nos tempos de cólera , do festejado Gabriel García Márquez. E na realidade, nos muitos dias que já vivi, assisti, em meio a confidências carregadas de emoção, muitas histórias similares, de pessoas comuns e perdidas em meio ao anonimato. Faz poucos dias, uma senhora, com duas adolescentes para criar sozinha, somente anos e anos de convívio comigo, contou-me que reencontrara seu primeiro homem, quando estava com 14 anos, após a separação do marido, e que vivem, há longos anos, uma bela história “clandestina” , mas que a faz prosseguir à espera de uma decisão, quiçá, antes de 50 anos.
Há histórias e mais histórias. Mas, a bem da verdade, o que muda é que algumas não têm o final previsto nos belos contos de fadas – felizes, perfeitamente felizes até que a morte lhes separe, à semelhança do que aconteceu com Roberto & Lily , há menos de dois anos atrás! Há esperas que se revelam inúteis. Como a da mulher que enfrentou uma sociedade cruel, severa e tirana, ao se apaixonar, e com a coragem que somente o amor proporciona, decidiu esperar pelo homem amado. Separado após tormentosos conflitos, ele seguiu o rumo de sua vida, indiferente à espera de quem passara de jovem para mulher, com a rapidez, que só o sofrimento é capaz de fazê-lo! Há esperas também inúteis. Mas doces esperas. Esperas em que os amantes, conscientemente ou não, sabem que há mais sonho e quimera do que realidade. Mas, a certeza de que não há desrespeito e mentiras, fazem com que prossigam a esperar a sorte de viver um belo amor, como Roberto & Lily , numa prova incontestável de que o amor pode bater à porta, nas horas mais tardias de uma vida de esperas. Não que seja impossível. É tão-somente pouco provável, como o jogador inveterado que aposta, a cada dia, na roleta, em busca da boa sorte!
* Ddoutora em ciência da informação, pesquisadora do CNPq, estudante de jornalismo.
(voltar ao topo)